Eu sou assim, ó: bem uma poesia da Cecília Meireles. E tenho gosto por ter em mim esse lirismo, que se assemelha com a ortografia de lírios, que são minhas flores favoritas, se alguém aí quiser saber. E se quer saber mesmo, o Chico Buarque é meu eu lírico. Bem mesmo o meu interlocutor preferido, mas eu gosto mesmo é das interpretações da Bethânia.

eu que não sei quase nada do mar
O Mário Quintana me encanta e as minhas fábulas favoritas têm sempre um sítio de uma ave amarela (como um sorriso) como cenário de fundo (até quando se passa no Reino das Águas Claras).
Amo textos escritos pra crianças, principalmente aqueles escritos pra crianças já adultas (porque adulto criança é o contrário, totalmente oposto). Maria Clara Machado, Barrie, Ruth Rocha, Bandeira, Carrol, Antonie e Ziraldo sempre me encheram de alegrias, ou de tristezas, mas sempre me tocaram. Não me julguem pelo fato de que eu gosto de ler livros repetidos, cada vez aprendo uma coisa nova. Não me julguem porque eu gosto da Xuxa, não acho ela boa cantora, nem a melhor apresentadora, nem acho que ela tenha nada que a faça incrível ou aceitável, mas eu gosto dela.
Gosto e não tenho vergonha de gostar. Aliás, não tenho vergonha de nada do que eu sinto. Gosto da Xuxa, do Chico Buarque, da Oprah, do Francis Hime, do Yamandú Costa, do Jamiroquai, do Cartola.

Não venha me falar que eu não conheço coisas de boa qualidade. Mais ainda, não venha me dizer que eu não posso gostar do que os outros não gostam. Eu gosto do que e de quem eu quiser e ninguém sabe a dor e a delícia de ser eu.
Eu gosto de beleza. Gosto dos sentimentos leves. Gosto de todos os meus amores. E eles são muitos. Entre todas as outras coisas eu gosto do meus amores mais do que de todas as outras coisas, mas também gosto do novo, gosto da mudança, gosto de aprender, gosto muito de descobrir. Gosto da sensação de gostar. Mais ainda gosto da sensação de amar. Diria que eu amo. Eu amo amar. Amo ser assim, meio besta quando falo de deus e da minha Fé. Ninguém acredita na minha forma de acreditar, mas eu sei que pra mim ela vale. O meu jeito de ser crente é o que mais me liga aos meus Deuses, ao meu Deus, às minhas energias e às forças da natureza.
Gosto de gente, mas gosto mais de gostar de gente legal do que de gente chata, apesar de amar algumas gentes chatas também. Amo acertar, não gosto muito de errar, mas gosto do teaching, essa sensação de troca, de equilíbrio, de continuidade.
Sabe a idéia de ter uma mala, sair viajando e colocando na mala tudo que você pode alcançar e, depois, quando chega em casa, você olha toda aquela bagagem e pensa: “Quanta coisa inútil, vou arrumar essa joça!” E quando arruma, não consegue jogar fora quase nada, mas organiza de forma que cabe tudo direitinho e você pode levar pros próximos destinos um monte de coisas que vão pesar na mala, mas que sem elas, você não vai ficar segura e confortável. Então você leva tudo. Compra uma mala maior. Coloca no hd externo. Zipa. Compacta e guarda tudo no chip ou no pen drive. Gosto, AMO viajar.

E viagem pode ser um passeio de barco, de avião, de hipogrifo. Não me julgem por gostar de Harry Potter. Eu tenho pra mim que o melhor jeito de provar qualquer coisa pra qualquer um é não provando nada pra ninguém. Eu gosto do Harry e da Hermione. Gosto da Sandy e do Junior. Gosto do Cazuza, do Ney Matogrosso, da Cássia Eller. Gosto da Rita Lee, da Paula Toller e da Adriana Calcanhotto. Gosto do Renato em Russo, em português, italiano ou na língua dos anjos.
Eu gosto da língua dos anjos. Eu gosto particularmente dos anjos (esses seres são mesmo indizíveis). Eu gosto de acreditar nas coisas e nas pessoas. Acredito em fadas e duendes, e fico muito cansada com quem não tem ou não usa a própria imaginação. Não, eu não gosto de entorpecentes e nunca vi duendes, mas não deixo de acreditar. Não tenho a pretensão de ser uma escolhida pra ver as coisas. Acredito que as coisas mais belas são invísíveis. Não acho que é verdade essa coisa de ver pra crer. Ninguém vê o amor e ninguém vive sem ele. Acho uma bobagem tremenda esses dizeres de caminhão que as pessoas cismam em dizer que encontraram nos salmos.
Eu acredito nos salmos. Mas acredito mais ainda na minha capacidade individual de interpretá-los da maneira que eu acho justa e lógica. Não acredito nas máximas do “diga-me com quem andas” (história de bisbilhoteiro) ou do “Quem pariu Matheus” ou essas outras máximas que as pessoas cismam em não “digievoluir”. Não, eu não assisto Pokémon. Eu acredito na evolução do ser humano. Eu acredito no amor fraterno. Eu acredito na caridade. Eu não fico gritando isso aos quatro ventos. Não sou testemunha de coisa alguma. Sou apenas testemunha dos meus próprios valores. Sou testemunha sensorial dos meus princípios. Não tento convencer ninguém dos meus gostos peculiares. Não entro em discussões religiosas (mas o Flamengo é o melhor time do mundo).
Não quero que as pessoas entendam o que eu digo, nem muito menos o que eu sinto. Eu entendo que eu sou difícil, complicada e perfeitinha. Eu gosto de algumas pessoas que não me entendem. Eu gosto de algumas pessoas que nem me conhecem. Eu não gosto de julgar ninguém (apesar de ser humana e fazer isso algumas vezes). Eu não culpo ninguém por julgar o outro. Mas culpo por fazer sofrer dolosamente.
Eu não gosto de sofrer, mas é quando eu escrevo melhor. Eu não gosto de sentir saudade, mas é quando eu tenho as melhores lembranças. Eu não gosto de mentira, e não tem nada de bom que possa vir daí. Eu gosto de respeito, e não tem nada no mundo que derive do respeito que seja ruim.
Eu gosto de blusas amarelas. Gosto de casacos de moletom brancos. Cachecóis pretos. Brincos prateados. Sapatos roxos envernizados. Botas cor de caramelo. Sandálias verdes. Xuquinhas de cabelo azul-bebê. E nem por isso saio por aí como um pavão. E na sexta-feira eu uso branco. E todos os dias da semana visto minha capa violeta antes de sair de casa.
Eu gosto de brincar de pique-alto, gosto de ver filme sozinha, gosto de dormir bem acompanhada. Gosto imensamente de cheiros. Mais do que de gostos, mas também gosto de sentir meu paladar aguçado. Gosto de brigadeiro, gosto de fazer brigadeiro e do cheirinho que fica na casa. Gosto de comer no pratinho o brigadeiro de panela, mas gosto mais da raspinha que fica grudada no teflon.
Eu não tenho um livro preferido, nem um filme. Já li muitos, já assisti um tanto. Sempre acho que o melhor livro e o melhor filme estão por vir. Eu não tenho uma música preferida, nem uma poesia. Mas essas, com certeza, já estão escritas e eu provavelmente já ouvi. Só ainda não morri pra saber qual foi realmente a melhor, a que mais me tocou, a que mais me marcou. Quando eu morrer dessa vez, prometo que volto pra contar!
Eu gosto das coisas que valem a pena. Eu gosto de me empenhar em fazer algo valer a pena. Eu gosto de cultivar. Acho essa uma palavra de grande sabedoria por si só. Cultivar. Pensa aí em tudo que é preciso pra se cultivar alguma coisa. Você precisa de cuidado, de carinho, de dedicação, de entrega, de disciplina. É, por mais maluquete e hippie que eu pareça, eu sou bem mais certinha e careta do que os seus pais. Os meus ídolos ainda são os mesmos, mas os motivos pelos quais eles o são, são outros, completamente diferentes.
Eu não vivo como os meus pais, e seria uma retrógrada se assim vivesse. Meus pais não vivem como eu, e não seriam meus pais se fossem tão vanguardistas assim. As coisas são como são, imutáveis, até que… mudam. Eu gosto do movimento. Normalmente não tenho medo de cair e nem de olhar pra baixo. Já tive medo de mim mesma. Hoje eu não tenho mais. Não tenho medo da maldade das pessoas, tenho pena. E acho que a pena é o pior sentimento do mundo, por isso não gosto de sentir pena, apesar de sentir, às vezes. Detesto ter que ser alguma coisa específica. Esse verbo “obrigativo” é um verdadeiro pé no saco.

E eu acho, que mesmo que eu não goste de obrigações e prefira fazer coisas de livre e espontânea vontade, não conseguiria viver em Cuba. Não gosto muito das coisas que terminam com “ista” – feminista, socialista, capitalista, extremista, passifista, stalinista, facista. Nada que cultive uma coisa só me agrada. Nada que siga apenas uma linha de pensamento e renegue as outras me agrada. Nada que simplifique demais, resuma demais ou idealize demais as coisas me agrada. Nada que seja extremo me agrada. Nem amor.
Amor tem que ser crescente. Tem que ter espaço pra crescer, mas nunca chegar lá. Tem que ter sempre a disciplina de ser ainda cultivável. Amor tem que ser instável dentro da sua estabilidade e segurança. Amor tem que trazer felicidade, conforto. Amor tem que ser um turbilhão intenso nos limites de sua própria calmaria afetuosa e singela. Amor tem que ser limítrofe. Amor tem que andar na tênue linha que separa os mortais dos espíritos de luz. Amor tem que ser igual a pão quentinho. Essa sou eu. E se você quiser me resumir, apesar de eu não gostar de sínteses, pode dizer assim: Essa daí gosta de pão quentinho.
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